O País das Neves

004Pensei um bom tempo antes de vir até aqui e escrever essa humilde opinião para vocês, já que não é uma tarefa nada fácil falar sobre um dos autores que mais admiro no mundo literário, ainda mais com um livro que ganhou o Prêmio Nobel de 1968. – e no qual eu não morro de amores! –
Devo avisar de antemão que o livro não é ruim, e logo mais explico o porquê da minha classificação para ele.

Mas vamos com calma que a prosa vai longe. Primeiro: quem foi Yasunari Kawabata e como se deu meu amor por esse autor tão pouco conhecido aqui no Brasil?

Meados de 2009 ou 2010 eu conheci uma descendente de japoneses, que assim como eu, é apaixonada pela cultura, arte, língua, animação e – também – pela Literatura Japonesa. Até então o máximo que eu tinha contato com essa literatura era algo bem esparso, textos aqui e acolá e outras obras que meu irmão já vinha adquirindo (como Musashi, por exemplo). Eis então que surge, em uma conversa sobre literatura, o nome de Kawabata. Eu não fazia idéia de quem era e muito menos tinha a noção do quanto esse autor afetaria a minha vida de leitor! Mas voltando ao assunto, pedi indicações e ela veio com uma grata lista de obras. Foi aí então que eu li “A Dançarina de Izu”, no qual pretendo tecer minhas opiniões mais para frente – assim como opinar sobre todas as obras dele lançadas aqui no Brasil -, e minha vida mudou! 

Mas então, quem foi esse bendito homem por quem eu tenho tamanho carinho?
Yasunari Kawabata é um dos mais importantes autores da Literatura Japonesa do século XX, nascido em Osaka em 1899, interessou-se por literatura quando ainda era um girino-adolescente, o que fez com que estudasse literatura na Universidade Imperial de Tóquio. Kawabata foi um dos fundadores de uma revista literária de nome Bungei Jidai, que era por sua vez influenciada pelo movimento modernista ocidental (em particular o surrealismo francês).
Sua escrita é ainda um mistério para mim, quanto mais eu passo meus olhos sobre seus livros, mais percebo o quão genial esse homem foi. Li certa vez que a escrita de Kawabata é “como um pincelar delicado em uma tela em branco”, pois ele consegue transmitir os sentimentos humanos com uma maestria impecável. Concordo de pés e mãos juntas com essa colocação! Não só os sentimentos, mas a natureza, as formas harmoniosas e grotescas da vida, tudo isso é muito palpável em suas obras; ele nos deixa claro o que um bom escritor tem de melhor e transmite isso para nós sem muito esforço. Às vezes me pego pensando em sua prosa tão poética que quase vejo ali pequenos haikais.

Yasunari Kawabata conheceu o lado trágico da vida muito cedo. Aos quatro anos tornou-se órfão dos dois pais, depois perdeu a irmã que mal conhecera, devido o afastamento de ambos, alguns anos mais tarde sua avó e sete anos depois seu avô, Kawabata tinha nessa época apenas quatorze anos.
Quando ganhou o Prêmio Nobel em 1968 com o seu livro “O País das Neves” Kawabata, em seu discurso, condenou avidamente o suicídio, já que alguns de seus amigos haviam morrido dessa forma. – como Yukio Mishima, que cometeu o Seppuku, um “ritual suicida” onde o indivíduo corta “literalmente” a sua barriga ou estômago. Esse Ritual era tido como um símbolo máximo de resgatar a própria honra. –
Por ironia, ou não, Kawabata suicida-se em 1972.

Yasunari Kawabata

Yasunari Kawabata

O País das Neves é uma obra estética, profunda em reflexão e que nos aproxima constantemente da natureza, das paisagens, do ar gélido das montanhas, do calor das termas e dos sentimentos das personagens. A descrição é simples, mas incrivelmente bela: “A lua brilhava como o azul de uma lamina petrificada pelo frio.”

Temos aqui Shimamura, um homem de Tóquio, casado, com filhos e sem emprego, mas que possui uma boa quantia em dinheiro. Resumindo: um intelectual Bom vivant.
Tendo se fixado em uma hospedaria de águas termais, Shimamura é apresentado a Komako, uma das gueixas mais requisitadas pelo povoado.
Como de costume nas obras de Kawabata, seus romances necessitam de um “quê” dramático – e às vezes confuso -, para isso, conhecemos Yoko; uma menina-mulher que possui “uma voz que de tão bela era triste, e que parecia chamar por alguém num navio distante onde nem seria ouvida.”, fechando assim nosso triangulo amoroso.

Nosso protagonista é um personagem analítico, observador e que tece comentários ocultos sobre tudo o que passa ao seu redor. Sua personalidade, em certos momentos, é bastante fria o que faz com que a nossa querida gueixa Komako bufe jargões simpáticos e sarcásticos sobre ele. – Komako é a mulher que sustenta todo o romance idealizado. – É importante ressaltar que não temos cenas de sexo nesse livro, mas sim um grande erotismo – o que é muito comum nas obras de Kawabata, já que ele era um obcecado pelo mundo feminino, sexualidade humana e a morte -. As várias facetas contraditórias de Komako são evidentes, por exemplo, em certa parte do livro ela entra decidida a ficar no mesmo quarto que Shimamura, mas só de fitar o seu rosto e diferir pequenas palavras com aquele homem ela já muda completamente de idéia e sai raivosa:

– O que foi?
– Vou embora.
– Não diga tolices!
– Pode deixar. Durma. Quero ficar aqui quieta.
– Por que quer ir embora?
– Não, não vou embora. Vou ficar aqui sentada até clarear.
– Que coisa mais sem graça, não me maltrate.
– Não estou maltratando coisa alguma. Imagine se vou maltratá-lo.
– Então…
– Não… Não… Estou angustiada
– Ah, então é isso? Não vou incomodá-la nem um pouco – riu Shimamura. – vou ficar quieto.
– Não quero
– E você é uma tola. Andando daquele jeito desvairado.
– Vou embora.

Yoko é a nossa personagem-mistério. Não sabemos quase nada sobre sua vida e, em seus breves aparecimentos, rouba a atenção de nosso protagonista, que se extasia com sua voz e delicadeza. Yoko, por sua vez, é um pássaro fora do ninho, sem expectativas ou muitas vontades. A impressão que me passa é que ela apenas continua seguindo o ritmo melancólico do País das Neves, sendo apenas mais uma entre as muitas mulheres daquele vilarejo.

Por isso, enquanto Shimamura olhava compenetrado, foi se esquecendo da existência do espelho e começou a pensar que a moça flutuava na paisagem do entardecer.
Foi nesse momento que os raios de sol, já tênues, iluminaram o rosto dela. O reflexo do espelho não era suficiente para apagar a claridade de fora, nem esta, forte o bastante para ofuscar a imagem refletida no espelho. A claridade passava como um relâmpago pelo seu rosto, mas não era suficiente para iluminá-lo. A luz era fria e distante. No momento em que o contorno de sua pequena pupila foi se iluminando, como se os olhos da moça e a luz se sobrepusessem, seus olhos se tornaram um vaga-lume misterioso e belo que pairava entre as ondas da penumbra do cair da tarde.

Yuzawa, na Prefeitura de Niigata. Foi nesse lugar que Kawabata inspirou-se para escrever "O País das Neves".

Yuzawa, na Prefeitura de Niigata. Foi nesse lugar que Kawabata inspirou-se para escrever “O País das Neves”.

A obra em si é muito bonita e, por ser Kawabata, eu sempre indico. Mas porque da minha pontuação média para ela?
Simples. Eu não consigo gostar de Komako. Aquela indecisão, aquele jeito neurótico pra cima de Shimamura o querendo a todo custo e ao mesmo tempo desejar que ele vá embora é algo que me aborrece. – Fora o próprio Shimamura que da brecha para que isso aconteça, sem pensar duas vezes em sua família, mulher e filhos. –
Sei que a obra não é obrigada a seguir um padrão clássico tradicionalista e que o autor quebra dogmas impostos pela sua sociedade, mas eu simplesmente não consigo engolir a nossa pequena gueixa da indecisão.

Se você conseguir se apaixonar por esses personagens, parabéns, você vai amar e desejar profundamente esse livro! Caso não ame, faça como eu: deixe que o autor te guie por inúmeras paisagens e pela sua linguagem poética.
Pode ser contraditório dizer tudo isso no final, mas eu ainda assim tenho um leve amor pelo livro. Olhem para o título: O País das Neves. O que lhe vêm a memória? A poesia já se faz na capa.

Ele, como bom vivant, talvez buscando se camuflar naturalmente, era por instinto sensível ao espírito do local em que viajava. Ao descer das montanhas, logo percebeu certa tranqüilidade no aspecto simplório daquele vilarejo.

Informações úteis:

  • Nota :  
  • Onde Achar: Livraria Cultura, Sairava
  • Título: O País das Neves
  • Título Original: Yukiguni
  • Autor: Yasunari Kawabata
  • Tradutor: Neide Hissae Nagae
  • Editora: Estação Liberdade
  • N° de Páginas: 155
  • ISBN: 985-7448-097-8
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3 comments

  1. Concordo com o que você disse, realmente só de ler o o titulo do livro da vontade de ler o que esta neste livro. Bom eu também não sou fã de triângulos amorosos(acho chato, sei lá).
    Aaah! Que vontade de ler esse livro também >.<

    http://biblossom.wordpress.com/

  2. Depois dessa primorosa resenha fiquei ainda mais empolgada para ler o livro. Eu estava inclinada a iniciar a leitura da obra de Kawabata por “Mil Tsurus” (reservado em meu Kindle há algum tempo), mas vou seguir a tua dica e ler primeiro “A dançarina de Izu”. Na sequência, pego este. Daí virei compartilhar minha opinião sobre a obra. Parabéns pelo blog! Tem excelente conteúdo.

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