O Palhaço e Sua Filha

O Palhaço e sua FilhaEu estou apaixonado, extasiado e, ao mesmo tempo órfão de um dos melhores livros que já li na minha pacata vida de leitor abandonado. Sabe aquele livro que você quer deixar de canto por longos dias só para não terminar de ler? Aquela pequena criatura que você olha com todo o amor possível, mas foge para não abraçar e dizer “eu te amo, seu lindo, agora vem pra cama comigo!”, pois bem, esse é o “Palhaço e Sua Filha” –Halide Edip Adivar (Editora Planeta Literário, 399 Páginas.)

Quando peguei o livro e olhei a sinopse vi que se tratava de uma autora Turca. Nunca havia lido nada de autores Turcos então “Why not?” seria uma experiência no mínimo interessante. Culturas diferentes, modelo de escrita diferente, nomes até então difíceis – impossíveis – de serem pronunciados. Ok, desafio aceito! Vamos ver o que o livro tem para me dar.

A história já começou assim, como quem não quer nada, meio encabulada e contida, ganhando meu coração e minhas lágrimas em algumas ocasiões de grande euforismo!
Pois bem, o livro nos conta a vida da pequena Rabia Abla, uma menina nascida em uma família extremamente religiosa, sendo sua mãe uma louca desalmada que sente grande amargura pela vida e pelo ex-marido exilado “Tevfik”; Seu avô é um homem de grande religiosidade e que repudia quaisquer praticas ligadas a alegria e ao prazer, para ele, tudo que não é vindo com dor e sofrimento, tudo que é ligado a brincadeiras infantis e divertimento vem diretamente das profundezas do inferno e devem ser cortadas de seu convívio. “São praticas Pecaminosas!” 
Por ter uma voz bonita, Rabia desde cedo recebeu o treinamento de uma Hafiz, ou seja, de uma Recitadora do Corão. Algo muito bem visto pelo seu avó – e professor – que a fazia decorar e entoar com a mais firme e delicada voz.
A história se passa em cima do crescimento de Rabia, de criança a mulher e como se tornou forte e destemida durante os anos.
Tendo suas apresentações causado grande impacto na sociedade local, ela logo chamou a atenção do ministro da Segurança Pública, o então Paxá Selim, que se ocupou da educação Musical de nossa protagonista, pagando o melhor professor de música tradicional da região, o Dervixe Efendi Vehbi.

Halide Edip Adivar era uma Feminista e deixa isso claramente explícito em sua obra, sua protagonista em momento algum é rebaixada a subordinação de um homem, pelo contrário, Rabia era considerada a Solteirona de seu bairro, pois nenhum homem sentia-se capaz de tê-la como mulher, de a “dominar” como os homens faziam na época com suas esposas; Nenhum conseguia tocá-la com palavras ou gestos.

Esse é aquele tipo de livro que jorra informações desde a sua capa – Lindíssima por sinal, onde há uma menina segurando um Alcorão, imagem claramente referente à própria personagem – Com uma belíssima Tradução e Apresentação de Marco Syrayama de Pinto, o livro se faz irresistível do começo ao fim.

Tentar fazer uma resenha é de longe um trabalho simples, temos que nos conter, não podemos contar momentos importantes da história e temos de deixar com um gostinho de ‘quero mais’ para quem está lendo. Mas, se algum dia vocês esbarrarem por esse livro nas livrarias, dê um chance, garanto que não vão se arrepender de tê-lo comprado, muito menos de tê-lo lido! Halide foi uma das mais importantes autoras da Literatura Turca e merece seu devido respeito entre nós.

“O mundo é uma arena em que Deus, o diabo e os seguidores deles reinam enquanto lutam pela supremacia. Se você desejar participar da briga, tem de se alistar no exército de um ou do outro” – pag. 206

Ps: Para aqueles que desejarem saber o que é um Recitador do Corão, procurem pelos nomes “Abdul Basit” ou “Somaya Abdul” no Youtube.

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2 comments

  1. Jon,
    sei bem o que é se sentir órfão ao terminar de ler um livro excelente; aconteceu isso com o último que li da Cimamanda Ngozi Adichie.
    Sua resenha me deu gostinho de quero mais e vontade de conhecer a escrita de Halide Edip Adivar!
    Abraços!

    1. Denise! Que bom te ver por aqui, fico muito feliz! 🙂

      Sobre o livro, eu sou suspeito a falar, virei fã dessa mulher! Uma pena que não tem outros livros dela traduzidos para nós.
      A Cimamanda é uma doce, a palestra que ela deu me deixou de boca aberta com certos preconceitos que ela teve que lhe dar. (A Hora que ela falou que botou a Fita da Mariah Carey para tocar, eu chorei de tanto rir!)

      Dê uma chance para ela, ruim eu tenho certeza que tu não va achar! 🙂
      Um Abraço!

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