Confissões de um Vira-Lata

Confissões de um Vira-LataSim, chorei, não nego e muito menos tenho vergonha de dizer isso. Confissões de um Vira-Lata foi o primeiro livro que li do Orígenes Lessa e tenho um carinho muito grande por ele. Na ocasião eu estava ajudando um gurizinho de 13 anos a entender melhor do livro e, como quem não quer nada, dei a idéia de lermos juntos a obra. – Ele morria de vergonha de fazer isso, renegou, relutou e disse com os dois pés juntinhos que não iria ler! Pois bem, fiz meu drama como um amante da Literatura e ele aceitou em incríveis 3 minutos. (claro, meu drama poderia ser digno de um Óscar, pois o guri ficou tão horrorizado comigo que logo saiu lendo a obra com um empenho de dar gosto.)-

O livro é tão bonito e mexeu tanto comigo que na época resolvi escrever essa pseudo-resenha: 

Sou vira-lata com orgulho! É sem dúvida a primeira “palavra dentro de palavras” que tenho a dizer depois de ler esse livro. Pouco é falado no mundo literário de Orígenes Lessa, saibam vocês que ele é um imortalizado da Academia Brasileira de Letras e suas obras são no mínimo fascinantes! Nasceu em Lençóis Paulistas no Estado de São Paulo, mas se mudou ainda jovem para o Maranhão junto com sua família. Romancista, jornalista, com mais de 50 obras publicadas no Brasil, participou ativamente da Revolução Constitucionalista
que acarretou mais tarde em sua prisão. Ganhou diversos prêmios literários, sendo o mais conhecido “Prêmio Carmem Dolores Barbosa” em 1956 pelo seu Romance “Rua de Sol”.  

Confissões de um Vira Lata é um livro simples, aparentemente, mas com um forte apelo ao comportamento humano. Confesso que fiquei um tanto chocado ao saber que aquele livro foi dirigido para um público Jovem ou Infanto-Juvenil, mesmo o livro tendo suas figuras “cute” e um ar – vez ou outra – engraçado ele é de um gênero bem forte e crítico. (Chorei duas ou três vezes nesse livro.)

A Obra fala do dia-a-dia de um vira-lata que resolve viver sua vida de uma forma bem diferenciada, dando umas cheiradas aqui umas rosnadas ali e de forma alguma deixando uma “cadelinha” em perigo! Suas aventuras pelo mundo humano, sua dureza em ganhar um pedaço de carne para comer e sua rapidez ao fugir da carrocinha é sem dúvida louvável! O nosso pequeno Vira-Lata (Com Orgulho!) sem nome e sem dono sempre nos toca ao falar de seus amigos que se foram, de como a relação com os humanos é difícil e ao mesmo tempo tentadora – afinal, todos querem um carinho! – Da sua angústia ao ter de conquistar uma cadelinha doméstica e paparicar seu dono; Um jovenzinho que pula, corre e joga vareta para ele pegar. É… O amor, o livro também tem suas pitadas românticas! Pela minha leve conta, ele engravidou umas 10 cadelas, amou umas 30, perdeu umas 20 (Carrocinhas, carros, caminhões, é triste ser cão) fora ainda as outras tantas que passou pela sua vida enquanto jovem.

A única inveja que nosso amiguinho teve foi de seu grande amigo Tobby, um cão de circo, de fama e nome internacional! Mas, como um bom cachorro de rua, prefere que o chamem “Uau-au”, pois era assim chamado pelo filho do dono do circo que “Infelizmente cresceu , foi ficando homem, comia fogo, trabalhava no arame, cabriolava no trapézio, uma vez caiu de mau jeito, se danou...”

Aparentemente pensamos que se trata apenas da vida de um cachorrinho fofinho pelas ruas sujas e fedorentas da cidade à procura do que comer, das amizades para se divertir e de uma boa cadelinha para passar a vida. Com toda certeza não é essa a mensagem que o livro nos quer passar. Confissões de um Vira-Lata é uma obra com um apelo maior, ela reflete na própria sociedade humana onde tudo que fazemos de “anormal” é criticada pelo meio “Civilizado”

É fácil perceber isso ao trocarmos toda aquela identidade canina pela identidade humana, felicidade, sofrimento, amor, amizade. Tudo foi muito bem planejado por Orígenes Lessa para retratar as ações das pessoas da época. A personagem parece estar falando conosco a todo momento, dando avisos sobre uma carne envenenada, de não confiar em todos os homens e nem de deixar de cumprimentar da melhor maneira possível: “uma bela cheirada no meio das pernas é muito eficaz“.

Esse é um livro que muitas pessoas leram quando eram mais jovens e que também muitos nunca ouviram falar, a obra não é nova, foi lançada em 1972 e até hoje reúne fãs da literatura nacional.

Creio que cada um tenha um vira-lata dentro de si, eu mesmo assim que terminei de ler, encarnei o espírito de cachorro sem dono e fui logo botando a bronca pra cima de todos. E vocês aí, podem me chamar de vira-lata, de “chechelento”, de pulga, de sem nome e dizer que eu não tenho coleira! Mas prefiro não ser dominado pela sociedade canina do que abaixar a minha cabeça para um Pit bull com jeitinho de Lessie! Não, não, meus caros! Da minha rua cuido eu! E não quero ver ladrões do meu lixo por aqui! Afinal, sou um vira-lata com orgulho! Protejo meu espaço com unhas e dentes, sou um cachorro velho, mas que conhece de longe o som de uma carrocinha! Ou pelo menos, até que o efeito do livro passe.

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2 comments

  1. Que linda resenha, Lou. Do Orígenes Lessa eu lembro ter lido O Feijão e o Sonho, e apesar de não lembrar muito bem do enredo, recordo da sensação que me causou, a denúncia social que ele faz no livro. Mas fiquei super interessada na vida desse vira-latas, pelo que você mencionou, pode até ajudar nos meus estudos!!
    Vi seu comentário no blog da Ju (O batom de Clarice), gostei do nome, vim conferir e não me decepcionei. Voltarei nas próximas atualizações.
    Ah, e sobre o post de abertura, também lido, adoro o José de Alencar. Foi meu escritor da adolescência, li todos os livros dele com 12 anos e cada um era uma descoberta. Até hoje, quando estou desocupada no trabalho, abro um arquivo com um livro dele e releio.
    Abraço
    Tati

    1. Primeiro, muito obrigado pelo seu comentário, me deixou muito feliz! 🙂
      Sobre o Lessa, bom, eu fiquei muito interessado no homem ao ler essa obra – incrível, como você leu no meu pequeno relato – O interessante é ver justamente essa denúncia no decorrer da história, é fantástico!
      Beijão.

      Jon

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